Como cuidar de quem já cuidou de tanta gente?

por Eloyse Davet

Gostaria de alertar quem já acompanha meus outros textos de que esse vai ser um pouco diferente, pois será direcionado especialmente para os cuidadores de idosos. Cuidar de alguém que já cuidou de tanta gente é uma tarefa complexa e, na maioria das vezes dolorosa. Ao nos depararmos com um idoso a certeza de que somos seres finitos se torna ainda mais evidente, o que pode promover sentimentos de impotência para quem cuida dessas pessoas. No Brasil, atualmente temos uma lei que assegura os direitos e regulamenta a profissão “cuidador de idosos” desde 2015, essa lei veio a partir da PEC das domésticas e é válida para todos os trabalhos realizados no ambiente doméstico. Esta legislação é uma conquista recente para uma profissão que já existe há tanto tempo. Entretanto, ela fortaleceu ainda mais a formação de profissionais na área dos cuidados. Ou seja, a atividade que era usualmente exercida por familiares e na completa informalidade, passa a ganhar destaque dentro do mercado de trabalho e isso além de gerar um novo nicho de negócios, também adentra ao campo da educação de modo a proporcionar conhecimento técnico na área dos cuidados. Mas de que importa tudo isso? Bem, penso que é relevante estabelecermos um brevíssimo histórico da atuação e difusão do cuidador de idosos como profissão e para você que está nessa área ter ainda mais conhecimento sobre seus direitos.

Como disse anteriormente, esse texto é direcionado a você cuidador(a) de idosos. Você que é responsável pela rotina, cuidados e saúde do outro. A minha conversa é com você. Sei que existem muitas pessoas que se tornaram cuidadoras por necessidades ou decorrente de situações adversas que acometeram algum familiar a uma condição que precisa de cuidados extensivos, mas no que tange os cuidados com idosos temos a presença de muitos profissionais formados que assumem essa tarefa. Cuidar do outro não é uma tarefa fácil, exige muito da gente e sobre isso eu falei bastante nos últimos textos (se você ainda não leu dá uma olhadinha), mas quando eu paro pra pensar sobre quem cuida de pessoas mais velhas eu reflito sobre a história de vida dessas pessoas que já viveram tanto hoje estão precisando de mais atenção. Quando digo que é difícil cuidar de alguém penso que deve ser muito mais difícil ainda cuidar de um idoso, pois a fragilidade se torna mais evidente ao passo em que a vida vai se esvaindo. É como olhar para um espelho possível.

Tendo em vista que a minha pesquisa não trata especificamente sobre cuidadoras de idosos, precisei ler alguns conteúdos extra para que pudesse escrever esse texto com um pouco mais de propriedade. Ao procurar por textos que pudessem me oferecer alguma base de diálogo encontrei um documento redigido pelo Ministério da Saúde e publicado em 2008, disponível na plataforma online do Governo Federal. Mesmo que um pouco defasado, este “Guia prático do cuidador” contém informações básicas para a pessoa que adentrou a essa nova ocupação laboral. Neste caso sim, o guia é totalmente direcionado a gerir os parâmetros que definem as funções de cuidado para com a pessoa idosa ou, conforme a nomenclatura utilizada por eles, acamada. Logo no início do guia é possível encontrar uma breve seção dedicada a tratar das questões do autocuidado, ou seja, é enfatizado logo no início de que é preciso que o cuidador primeiramente se cuide para que depois possa cuidar de outra pessoa. Entretanto, por se tratar de algo prático e pouco reflexivo, é apenas plantada uma sementinha do autocuidado que volta a ser regada somente nas partes finais do guia, em que é ressaltada a importância em se cuidar fisicamente para evitar possíveis lesões decorrentes das rotinas de cuidado. Deste modo, numa avaliação rápida do manual, posso dizer que é um material interessante, especialmente para quem está “caindo de paraquedas” nessa nova profissão.

Mas aí surge o questionamento, e quem já é cuidador de idosos, não formado mas há muitos anos, como sabemos ser o caso de muitas pessoas (na grande totalidade, mulheres) que passam a cuidar dos pais ou sogros? Pois bem, gostaria de falar um pouquinho mais com você, mulher, que nesse momento está numa situação inversa de papéis e cuidando de quem sempre cuidou de você. Esse momento pode estar sendo muito difícil, tenho certeza de que está, mas te convido a rememorar o aprendizado que já acumulou da relação com a pessoa que está sendo cuidada. Na semana passada, assisti a um novo programa do Rodrigo Hilbert chamado “Tempero de família – tempo de cuidar” e me emocionei com a história de uma menina e sua avó e o modo como os papéis de cuidado se invertem, ainda mais em meio a essa pandemia. Nesse quadro, o protagonismo é direcionado àquelas pessoas que já dedicaram muito tempo de suas vidas cuidando de alguém e que hoje estão precisando ser cuidadas. O episódio que assisti contava a história de uma jovem que ao perceber a tristeza da avó resolve fazer algo para diverti-la e de repente a “vó Rosalina” ganhou milhões de netinhas e netinhos espalhados pelo mundo todo. A neta resolveu gravar alguns vídeos com a avó e postou na internet, de repente a vozinha ficou famosa e ao passo em que foi recebendo o carinho virtual de várias pessoas que ela nem conhecia, ela foi encontrando um novo sentido na vida e o sorriso voltou a habitar o seu rosto. Não trago esse relato com o intuito de introduzir um drama ao texto, mas sim porque percebi a potência da atitude da neta ao procurar fazer algo pensando na sua avó que estava precisando muito da sua ajuda. Às vezes, pensamos que para ajudar alguém é preciso despender grandes esforços, mas na grande maioria das vezes é necessário enxergar a pessoa cuidada como uma pessoa de fato. Uma pessoa que tem necessidades, que precisa ter uma medida de autonomia e acima de tudo: precisa ser respeitada e valorizada. A jovem que sempre viu a avó sorridente e brincalhona tentou resgatar essas atitudes da senhorinha já cansada e triste por estar longe de quem ama.

Imagino que esta seja a realidade de muitos de vocês, cuidadoras e cuidadores, de pessoas idosas nesse momento. É difícil cuidar de alguém, volto a repetir, mas é ainda mais difícil quando a gente acha que não pode fazer nada para ajudar essa pessoa a viver de modo leve e aproveitando cada momento. Em meio a todas as rotinas de remédios, exercícios, banho, alimentação e demais tarefas, sentar e conversar com as pessoas cuidadas é algo que só irá fortalecer a relação de vocês. Não somente isso, fará com que a pessoa cuidada se sinta uma pessoa e você que cuida não se sinta tão só nessa caminhada.

Assim, como última coisa que gostaria de lhe falar: cuide de você! Sinta-se bem, entenda a importância do seu trabalho na vida da outra pessoa, mas busque não pensar nisso como um fardo enorme e difícil de carregar. Tente lembrar da história de vida da pessoa que você está cuidando, e busque lembrar a própria pessoa de sua história. Um fato é de que em uma relação com outra pessoa, todo mundo ganha e aprende alguma coisa. Sei que a finitude é ainda mais visível nas pessoas idosas e que isso pode vir a te assustar ou entristecer, mas lembre-se de que tudo depende do ponto de vista com que olhamos para a situação. Procure viver intensamente os momentos em que está com a pessoa cuidada e se ela já não se lembrar quem é, tente você não se esquecer de quem ela foi. Mas, se eu puder te dar um conselho, nesses casos de perda de memória busque não sofrer e se apegar tanto ao que a pessoa era, mas sim no que ela está podendo te apresentar nesse momento. E o principal, quando quiser alguém para conversar e compartilhar lembre-se de que estamos aqui. Faça parte de nosso grupo de cuidadores no WhatsApp, nos procure nas redes sociais. Você não está sozinha(o), seguimos com você!

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