Manifesto dos Crônicos

Manifesto dos Crônicos

A doença é considerada, socialmente, a anomalia, a anormalidade no seio de uma sociedade saudável. Assim como há inúmeras saúdes, há inúmeras doenças. A doença pode ser vista como metáfora, como risco, dano, alteração, diferença, enfermidade, mas também como identidade, forma de ser no mundo, meio de aprender a ser humano e de construir laços de amizade.

Se a medicina clássica diz que a doença crônica é aquela que não se resolve em curto espaço de tempo e que, na maioria das vezes não tem cura, causando o desespero de muitos, qual a história que nós, pessoas com diagnósticos crônicos contamos?

A doença não é apenas o corpo doente, mas a relação da pessoa que habita esse corpo com seu meio social. A doença é relacional, com sentidos construídos histórica e culturalmente, e a forma como lidamos com as nossas doenças está diretamente relacionada às condições sociais em que nos encontramos.

Aqui na CDD vemos as doenças, as deficiências e as diferenças como algo da vida cotidiana e não como uma tragédia pessoal, entendendo a fragilidade do corpo como uma condição humana e entendendo que a vida independente, tão propagada por todos, é uma ilusão, uma vez que ninguém vive sozinho. Assim, vemos não só quem tem o diagnóstico, mas todo seu entorno, incluindo cuidadores, familiares, amigos e sociedade em geral.

A doença pode trazer sofrimentos e mudar a forma como a pessoa que a tem interage com o mundo. Assim, encaramos a dor e o sofrimento de frente. Sabemos que a doença não pode ser nem o principal, muito menos o único identificador da pessoa, mas não pode também ser esquecida, justamente por ser um identificador que traz consigo sofrimentos e limitações, mas também possibilidades e potências.

Ser um crônico é saber que a vida não corre mais no tempo do relógio, do trabalho, da sociedade. Se um tempo impessoal nos diz que devemos ser isso ou aquilo, que temos que fazer as coisas num tempo preciso, que devemos responder a um tratamento no tempo estimado, criamos uma identidade própria que não dialoga com essa história única para todxs. Vivemos o tempo dos nossos corpos, o tempo de nos percebermos a cada segundo no tempo presente, sem lamentos pelo que fomos e pelas expectativas do que esperávamos ser no futuro. O tempo do crônico não é linear, é o tempo da vida.

Ser um crônico é atribuir novos significados para saúde, doença e para o corpo. O diagnóstico médico está no campo biológico, mas no campo social, no dia a dia em que vivemos, em que passamos nossas experiências, a doença existe enquanto narrativa. Nós, (im)pacientes crônicos, narramos de forma leiga o que sentimos e criamos significados para nossas experiências através das palavras.

Ser um crônico e assumir nossas condições de dores, diagnósticos, doenças e aprendizados é contar nossas histórias, viver publicamente e não termos vergonha de sermos quem somos. Precisamos poder nos contar, porque as histórias são os alicerces de nossas identidades.

Sempre haverá alguém querendo confiscar nossa humanidade, querendo nos culpar pelo que passamos, querendo dizer que não somos merecedores, mas permaneceremos unidos, em comunidade de compartilhamento para que nossas histórias nos restaurem. Viver em voz alta é expandir a vida de todxs.

 

*Texto escrito por Bruna Rocha – Comunicação CDD

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