Por Fernando Aguzzoli-Peres

Ser avô ou avó é um grande momento na vida de qualquer pessoa. É quando passamos a ver a vida sob outro ângulo, desfrutando de uma relação leve e cheia de aventuras geracionais, mas sem aquela obrigação de criar, de forçar hábitos, de levantar na madrugada para checar o motivo do choro ou de passar o dia inteiro trocando fraldas e correndo de um lado pro outro. Mas nem sempre é assim! 

Em entrevista para a rede global de pesquisadores em demência (World Young Leaders in Dementia – WYLD), Dr. Ivan Okamoto, neurologista de São Paulo, fala sobre os aspectos positivos de uma relação intergeracional funcionando como uma espécie de terapia para os envolvidos, mantendo os avós em alerta, com a mente ativa e sempre em contato com questões e temas que não fazem parte de seu universo, renovando constantemente seus interesses, tais como buscar e assistir filmes para crianças e adolescentes, jogos com diferentes níveis de complexidades e novas regras. Até mesmo ajudando o neto a estudar para um teste, se fazendo necessário recordar questões que nunca mais foram revistas pelos avós, talvez em décadas, como aritmética ou literatura.

Eu mesmo tive essa relação gostosa com a Vovó Nilva, com quem criei uma reserva de afeto ao longo da infância e adolescência, e por quem decidi largar tudo para viver o diagnóstico do Alzheimer do inicio ao fim. Isso tem nome: netoterapia, e foi descrita e estudada pelo Dr. Okamoto. “A melhoria dos laços sociais e familiares, em um estudo epidemiológico já demonstrado, está entre as mudanças no estilo de vida que impactam a qualidade das cognições dos idosos”, afirma o médico brasileiro.

Você verá que assim como a terapia envolvendo a relação com os netos, muitas outras atividades terapêuticas já fazem parte do seu cotidiano: jardinagem, música, convívio com os pets ou aromaterapia. Mas cada uma dessas atividades, para que traga benefícios para a fase de vida em que nos econtramos, deve ser acompanhada de um terapêuta licenciado. Mas…e a netoterapia? 

Esse é um daqueles casos empíricos, descomplicados e de fácil acesso, que tem seus benefícios cientificamente comprovados. E o melhor de tudo: os profissionais necessários para esta prática são facilmente encontrados: avó, neto e uma geração intermediária, os pais, responsáveis por administrar o limite entre o benefício e o excessivo nessa convivência.

 Convenhamos que permanecer ativo social, mental e fisicamente é uma boa ideia em qualquer fase da vida, mas também pode contribuir para um envelhecimento saudável e ativo, e ser avô/avó é uma grande ferramenta para manter nossa saúde como todo, além de proporcionar um bom vínculo com outra geração e diferentes estímulos.

O médico alerta: “É muito importante medir quão benéfica ou prejudicial está sendo a relação entre avós e netos, embora o amor da avó nunca seja demais. O tempo não é a questão aqui, é a qualidade do tempo juntos”. Para que esta relação seja considerada uma terapia, alguns critérios devem ser respeitados, como o fato de desfrutar de um leve companheirismo sem grandes  responsabilidades. 

Para os avós, é mais agradável cuidar do neto quando não há pressão para que a criança acorde em determinada hora, coma determinado alimento, estude por determinado período e cumpra com todas as obrigações cotidianas que são de gerenciamento dos pais. É aqui que a geração intermediária ganha protagonismo, seja por fazer o bom manejo de cada papel, equilibrando as responsabilidades para manter um relacionamento saudável, ou forçando uma relação disciplinada e cheia de preocupações/obrigações que são originalmente de responsailidade dos pais.

Um estudo australiano na Universidade de Melbourne provou até mesmo que esta relação saudável entre as duas gerações pode trazer benefícios à memória e retardar alguns sintomas iniciais de doenças como o Alzheimer. 

Um total de 131 avós entre 57 e 68 anos de idade foram matriculados para um estudo de dez anos. Sua memória, planejamento e raciocínio foram avaliados e os resultados mostraram que aqueles que tinham uma relação saudável com seus netos se lembravam de 69% das palavras no teste de memória, 6% mais do que as avós que não tinham a mesma interação. 

No entanto, o mesmo estudo mostrou que os avós sobrecarregados com o ‘fardo’ de cuidar de seus netos durante toda a semana não tiveram um bom desempenho. Os testes de memória e cognitivos mostraram um impacto devido ao estresse da responsabilidade atribuída a eles.

O médico ainda ressalta que “Os avós podem ter os benefícios neutralizados quando há um conflito educacional pela sobrecarga de assumir o papel de “pais”. Deve ser sempre equilibrado“. 

E aí, conta pra nós como é o seu convívio com seus netos ou avós!

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