Entre janeiro e abril deste ano, mais de meio milhão de pessoas contraíram o vírus, segundo Ministério da Saúde.

Nesta reportagem, você ficará sabendo que:

  • O vírus da dengue é transmitido pela fêmea do mosquito aedes aegypt;
  • Existem quatro tipos de vírus e pacientes que pegaram um deles podem se infectar com os outros;
  • Alguns sintomas como dores pelo corpo, de cabeça ou febre podem ser confundidos com covid-19, mas também são indicativos de dengue;
  • Pacientes com doenças crônicas, sobretudo hepáticas, precisam redobrar atenção.
  • Não há uma política nacional para o combate a dengue e a prevenção ainda é o melhor caminho.
  • A biotecnologia apresenta soluções, ainda em estudo, para controlar a infecção.

Nos primeiros cinco meses de 2022, foram registradas quase 400 mortes por dengue no Brasil. Os 382 óbitos representam mais que a totalidade dos notificados em 2021, em meio à pandemia de covid-19. O boletim divulgado pelo Ministério da Saúde em maio também relata que existem outras 349 mortes que estão sendo investigadas.

A possibilidade de subnotificação dos casos de dengue é uma realidade, já que o vírus pode, até mesmo, ser assintomático, como explica a infectologista Rosana Richtmann, em entrevista para o canal da CDD no YouTube.

“Aproximadamente 70% das pessoas que têm dengue não apresentam sintomas. Você pode ter um sintoma muito fraco e nem saber que está com ela. É uma doença que pode causar um quadro clínico desde ‘quase nada’ até coisas muito graves. De uma maneira geral, o vírus causa uma febre alta, de início abrupto, dor atrás dos olhos e pode confundir com covid também. Dor abdominal e eventualmente erupção na pele. Alguns apresentam conjuntivite também”, explica.

Existem quatro tipos de vírus da dengue. Quem contraiu um dos tipos não está imune aos outros. Quem transmite é a fêmea do aedes aegypti, que vive cerca de um mês, mas é capaz de colocar 40 ovos a cada três dias. “Então, é um mosquito que vive pouco mas tem uma tarefa: colocar os ovos. E para isso precisa de sangue. Se a fêmea picar alguém que está infectado com o vírus da dengue, ela se infecta e sai infectando outras pessoas”, afirma a médica.

Infectologista Rosana Richtmann

A forma mais grave da doença é a dengue hemorrágica e, ao contrário do que muitos pensam, quem está mais propenso a desenvolver esse quadro é justamente quem já contraiu o vírus antes. “Existe um fenômeno imunológico de que, quem já teve dengue uma vez, no segundo episódio, tem um risco maior de ter uma versão mais grave. Outra preocupação são os pacientes hepatopatas, já que é uma doença que também ataca o fígado e causa uma inflamação”, alerta Rosana Richtmann. A especialista acrescenta que pessoas que têm alguma patologia com o número de plaquetas mais baixo também merecem atenção.

A dengue mata e não há um tratamento específico, um antiviral que acabe com ela. Porém, quanto mais precoce esse paciente for atendido, melhor. É preciso fazer muita hidratação e repouso para que ele consiga sobreviver ao ciclo do vírus. “Nosso sistema imunológico precisa ficar focado em combater aquele vírus e não ficar distraído com outras funções. A dengue tem uma característica de hemoconcentração, então, o sangue fica ‘mais grosso’, e a hidratação é fundamental para tê-lo mais fluido”, ressalta a infectologista.

De acordo com o boletim do Ministério da Saúde, foram 542.038 casos prováveis, entre a primeira e a décima sexta semana epidemiológica, no período entre 2 de janeiro e 23 de abril de 2022.

Vacina contra a dengue e doenças crônicas

No Brasil, existe apenas uma vacina, autorizada para uso, contra os quatro tipos de vírus. Para receber as três doses, é preciso comprovadamente já ter tido dengue antes. “Não é tudo o que a gente queria de uma vacina para dengue. O ideal seria um imunizante de dose única, de fácil acesso, que não tenha tantos efeitos adversos e que funcione muito bem para os 4 tipos da dengue. Então, a vacina da dengue ainda não é uma realidade”, pondera Rosana Richtmann.

No entanto, a infectologista aposta na Ciência: “Nós estamos a caminho, ainda mais depois de tudo o que aconteceu nos últimos dois anos, esse salto enorme tecnológico que a gente fez em vacinas por causa da covid, acho que estamos em um caminho. Mas se hoje alguém me perguntar uma indicação de vacina para dengue, eu vou ter que indicar outras formas de prevenção”.

Sobre pacientes que têm doenças crônicas, a médica chama atenção para o tratamento com imunossupressores e que diminuem a capacidade de resposta imune: “Hoje a gente não tem nenhuma vacina de dengue que não seja de vírus vivo. Elas são, por definição, contraindicadas para quem faz tratamento imunossupressor a longo prazo”. A infectologista enfatiza que, na dúvida, é bom sempre consultar o especialista que já te atende.

Prevenção como regra, sobretudo, para quem tem doença crônica

O Brasil é um lugar propício para a proliferação do mosquito aedes aegypti: faz calor, chove bastante e tem aquele vizinho que não faz a higienização correta dos ambientes ou aquelas pessoas que jogam lixo em terrenos, por exemplo, acumulando água parada. Como vamos nos proteger?

“Uma das formas de proteção individual é o uso de repelentes. O problema é que, às vezes, a gente acaba ficando com preguiça. Mas tem de usar”, recomenda Rosana Richtmann.

Ela alerta que o mosquito da dengue, em especial, é mais vespertino e voa relativamente baixo. “Eu digo isso porque é preciso usar meia, calça comprida e cobrir os membros inferiores do corpo, pois são os locais prediletos dos mosquitos. Nessa época do ano você sabe que tem um número grande de casos, se é um paciente crônico e não é candidato a vacina da dengue, use roupas leves, porém com manga e calça compridas e, nas áreas descobertas, passe repelente. E a última dica é: se você passar protetor solar, o repelente sempre é a última camada”, conclui.

Políticas públicas e biotecnologia contra a dengue

Além das campanhas de conscientização das pessoas, não existe uma política nacional coordenada no Brasil contra a dengue, na avaliação de Rosana Richtmann: “A dengue é um ‘problemaço’ de saúde pública para o nosso País e em vários outros que têm as mesmas características. Não adianta simplesmente falar para a população que precisa tomar as medidas. Temos hoje iniciativas localizadas. Não temos uma política pública que seja nacional, agindo de forma homogênea no Brasil. Você tem iniciativas nos Estados e não é suficiente. O mosquito não respeita fronteiras”, considera.

Sobre iniciativas pontuais, a prefeitura de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, fez um mapa de onde estão os principais focos das fêmeas do mosquito aedes aegypti. É possível acompanhar no site, bem atualizado, quais foram as capturas realizadas em cada período – clique aqui para saber mais.

Na opinião de Rosana Richtmann, é preciso investir em biotecnologia para nos proteger do vetor. Ela menciona um estudo da Fiocruz a respeito do uso da bactéria Wolbachia para o controle populacional do aedes. “É assim: você solta no ambiente alguns mosquitos aedes aegypti infectados com essa bactéria. Assim, ele não consegue transmitir dengue, chikungunya ou zika. Os pesquisadores decidiram infectar esses mosquitos, que vão gerar ovos infectados, fazendo com que a próxima geração nasça com a wolbachia. Com isso, eles não deixam de picar, mas não transmitem a doença”, afirma.

A infectologista também cita outra biotecnologia como uma boa ação de política pública: “Acho interessante você criar no ambiente ovos geneticamente modificados que, a hora que tiver água, dá origem a machos estéreis. Eles não vão conseguir fecundar as fêmeas e, com isso, tem menos mosquitos. É uma forma de diminuir o número de infectados”.

A live completa com Rosana Richtmann está disponível no canal da Associação Crônicos do Dia a Dia (CDD), no YouTube.

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