Precisamos falar sobre saúde sexual das jovens no Brasil

Semana Nacional de Prevenção de Gravidez na Adolescência pretende informar jovens e responsáveis sobre o tema

Na reportagem, você ficará sabendo que:
– A taxa de gestação na adolescência no Brasil é alta: 400 mil casos por ano, em média;– Em 2014, por exemplo, nasceram 28.244 filhos de meninas entre 10 e 14 anos;
– No mesmo ano, mais de meio milhão de crianças nasceram de jovens com idade entre 15 e 19 anos;
– Ao mesmo tempo, adolescentes ainda recebem ensino superficial sobre sexo e sexualidade nas escolas e muitos pais não conversam a respeito do assunto.

A saúde da mulher no Brasil ganha holofotes em praticamente todas as fases da vida, exceto uma: a das adolescentes. Com conteúdos didáticos na escola, porém superficiais, as meninas crescem sem saber questões complexas sobre sexualidade, na visão de Maria Eduarda Augusto Duarte, de 16 anos. “Os primeiros contatos que tive com o tema sexo e sexualidade foram pela escola, na matéria de ciências humanas, entre o 6° e o 9° ano. Os livros explicavam um pouco sobre as partes do corpo humano e este foi o meu primeiro contato, mas sem muitos aprofundamentos no tema”, afirma.

Duda cita também os conteúdos que foram ensinados à ela e aos colegas de classe: órgãos reprodutores e suas características; doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e métodos contraceptivos. Mas a pediatra Luiza Mariana Cordeiro Silva, especialista em Medicina do Adolescente, ressalta que é preciso ir além: “Educação sexual é um tema tão amplo, tão necessário, e muitas vezes é deixado de lado ou levado para campos religiosos de uma forma que não deveria acontecer. Educação sexual envolve diversas outras esferas como o autoconhecimento, o respeito ao meu espaço e ao do outro, consentimento, como me coloco no mundo, e o famigerado sexo acaba sendo uma parte disso, e não todo ele”.

A adolescência é uma fase importante na vida do ser humano, na medida em que os pais e responsáveis praticamente deixam de cuidar diretamente da higiene pessoal dos filhos, que estão cada vez mais independentes. Por serem jovens, não frequentam tanto os consultórios médicos e desconhecem o que é Hebiatria – especialidade da medicina que cuida somente dessa faixa etária. “No Brasil, muitas vezes este tema não é tão abordado. Os adolescentes nem sequer sabem que existe uma área própria para cuidar da nossa saúde. Além disso, alguns pais também podem não ser tão receptivos a este tipo de conversa tão íntima com seus filhos. Então, devido à falta de informação, muitas vezes, os adolescentes, e principalmente as meninas, não sabem tanto sobre o seu próprio corpo e a forma como devem se prevenir e cuidar da saúde”, avalia Duda.

Jovem branca de cabelos castanhos, compridos até o torso e olhos castanhos. Usa óculos de armação dourada e toda metálica, blusa florida de alças. Olha diretamente para a câmera sem sorrir.
Maria Eduarda Augusto Duarte (Foto: Acervo pessoal)

De 1 a 8 de fevereiro é celebrada a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência. A data, instituída pela Lei nº 13.798/2.019, tem o objetivo de disseminar informações sobre medidas preventivas e educativas que contribuam para a redução do número de casos.

Há 16 anos, quando soube que estava grávida, a mãe de Duda ainda era muito jovem. “Minha mãe engravidou na adolescência e algumas meninas da escola também. O comum de todos os casos é que as meninas tiveram de parar seus estudos e isso afetou significativamente todo o seus planos de carreira”, lembra.

  • Os adolescentes – indivíduos com idades entre 10 e 20 anos incompletos – representam entre 20% e 30% da população mundial. Estima-se que, no Brasil, essa proporção alcance 23%. A taxa de gestação nessa faixa etária no País é elevada, com 400 mil casos por ano. Em 2014, nasceram 28.244 filhos de meninas entre 10 e 14 anos e 534.364 crianças de mães com idade entre 15 e 19 anos.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a gestação precoce é uma condição que eleva a prevalência de complicações para a mãe, para o feto e para o recém-nascido, além de agravar problemas socioeconômicos já existentes. “Vivemos uma realidade tensa no momento. Não falamos como deveríamos sobre o que a gravidez na adolescência pode causar ao binômio mãe-bebê, à sua família e ao potencial de vida que pode estar em risco nesses casos, mas falamos sobre abstinência como possível estratégia para prevenir a gestação das adolescentes. É algo que comprovadamente não funciona e vai na total contramão do que acontece nessa fase: curiosidade, vontade de explorar e viver sua sexualidade”, enfatiza a hebiatra.

A médica acrescenta que o número de DSTs no Brasil só aumenta entre os jovens. “Cada vez mais temos despertado para a necessidade de falar sobre o assunto de forma aberta, honesta e clara com eles. Os números de infecções sexualmente transmissíveis, antes muito menores, só aumentam de forma alarmante, reflexo do não uso de preservativos, por exemplo”, diz.

Jovem branca de cabelos castanhos e lisos na altura do ombro e olhos castanhos. Usa óculos de armação metálica dourada com detalhes estampados na parte superior. Veste camisa de botão jeans com um jaleco branco por cima. Sorri de braços cruzados.
Luiza Mariana Cordeiro Silva (Foto: Acervo pessoal)

“A gravidez é um peso muito grande na vida de uma menina. A adolescente que tem um filho, além de ter um psicológico muito imaturo para carregar tamanha responsabilidade, seu corpo também não está 100% preparado para abrigar este embrião, podendo trazer riscos a sua saúde, além de ela provavelmente ter de abandonar seus estudos, consequentemente interferindo na construção do seu futuro”, ressalta Duda.

Para a médica Luiza Mariana Cordeiro Silva, é preciso promover algumas discussões importantes com os jovens: “Sobre o maternar na adolescência, como se cuidar, como tomar decisões melhores e, acima de tudo, respeitando a individualidade e o poder de trilhar seu próprio caminho que todo jovem tem. Precisamos perceber que não somos nós quem tomamos as decisões que vão mudar os números que nos preocupam e sim eles mesmos: os adolescentes, que quando percebem o poder de uma decisão tomada de forma responsável, conseguem trilhar caminhos cada vez mais benéficos para si e para o meio em que vivem”.

Dicas para as adolescentes

Com a ajuda da pediatra Luiza Mariana Cordeiro Silva, especialista em Medicina do Adolescente, fizemos uma lista de dicas para as adolescentes, mesmo que não tenham um diálogo direto e franco com quem as rodeia, mas que precisam de informações com qualidade. Vamos lá:

– Vencer os tabus acerca de conhecer o próprio corpo, se tocar e se explorar sem culpa, como deveria ser. “E, dessa forma, me conhecendo e me respeitando, consigo estabelecer relações com os outros de forma respeitosa e conseguindo impor meus limites”, afirma a médica;

– Reconhecer suas capacidades e descobrir do que gosta ou não;

– Entender que o corpo é o seu espaço, que sexualmente as interações não devem ser forçadas, difíceis, dolorosas ou não consentidas;

– Ter uma rede de apoio em quem possa confiar. Além de familiares e amigos, é importante ter um médico de referência, um hebiatra com quem poderia tirar dúvidas, receber esclarecimentos sobre práticas sexuais seguras, formas de se conhecer melhor, prevenção de gravidez, infecções sexualmente transmissíveis e outras situações de risco.

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