por Ana Clara Tissot
Quando eu me tornei adulta – ainda que não saiba o que significa adultez num planeta empedernido – me acompanharam os pormenores de uma vida cheia de reticências, desajustes e desalinhavos.
Eu era um retalho costurado à muitas mãos: a mão de quem me educou, a influência familiar, os anseios juvenis, as escolhas, os erros e os semi acertos. Eu simplesmente era, sem o compromisso do autocarimbo, ou de algum rótulo que me parecesse pequeno para o tamanho de minhas asas.
Depois de muitas estações primaveris em settings terapêuticos eu recebi o diagnóstico de autista, quando dobrava a esquina dos quarenta anos e já não me importavam mais as coisas que outrora me tiravam o sono. Mas ainda assim, tudo fez sentido. É como se as respostas menos previsíveis estivessem finalmente ao alcance de uma dose de entendimento.
Não foi um processo levíssimo – e ainda não é. Ganhar espelhos que nos apontam a queima roupa para vulnerabilidades, suscetibilidades e nos apresentam a versão real de quem somos é para meia dúzia de viventes.
Todavia, o que isso implicaria? O que ser autista significaria (e significa) na minha rotina, nos meus afetos, nas minhas reentrâncias emocionais?
Tudo. E nada.
Tudo mudou e absolutamente nada mudou. Eu permaneço inquieta, em estado de arte e absolutamente seletiva com o que como – das palavras aos alimentos. Continuo minha arqueologia na busca por silêncios oportunos e vez ou outra percebo que alguns limites são boias que me salvam e não balizas que me isolam.
Ser adulta autista é uma condição poética entre meus rabiscos. Eu reinvento meu mundo diariamente a despeito das etiquetas que tentam me impor para acomodar meu ser em prateleiras sociais.
Eu simplesmente sou. E estou. Me esparramo sem me estancar. O autismo a bem da verdade, me salvou.

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