Minha história com a NMO, parte 1

Por Luara Baetas

“Amanhã escreverei meu texto para a CDD.” Passei por dias assim, na esperança daquele momento perfeito para que a inspiração viesse, afinal era um ato tão especial, que a data da minha estreia não poderia ser diferente.

Dormi e acordei por mais tantas vezes com o mesmo pensamento. Até que hoje, acordei entendendo que as palavras certas para mim serão sempre aquelas que conseguissem projetar o meu coração para a ponta da caneta.

Sem mais delongas vou me apresentar e como uma boa leonina, escolhi o mês de aniversário, para minha estreia como blogueira: Meu nome é Luara Baêta, acabo de completar 34 primaveras. Sobre minha história, não há como contá-la com poucos caracteres, daria um livro, uma trilogia ou quem sabe uma saga? Contar um pouco e aos poucos, dividir a minha vida com vocês será de fato um presente que a CDD, neste momento me oferece. Prometo me esforçar para que esta relação seja a mais incrível possível!

Então vamos lá: Há 18 anos tive que fazer uma cirurgia cerebral de urgência. Era o meu 3º ano do ensino médio e vários projetos de vida estavam por vir, afinal, eram abertura de portas, com início de inscrições para os vestibulares.

Mas na verdade, esta parte de minha história teve início há 20 anos atrás, com alterações de comportamento, convulsões, dores de cabeça… exames investigativos que eram feitos e nada dava positivo em relação às hipóteses diagnósticas ofertadas, naquele caso, por um neurologista, com o qual fiquei, sem nenhum apoio clínico, durante um ano. A partir de então, vários outros questionamentos surgiram (e inferências: “você usa maconha? Pode falar.”), encaminhamento para psicoterapia e processos alternativos. Não retornei a este médico, mais.

Foi quando comecei a piorar e ter ausência, dentro de sala de aula. Minha produção intelectual/cognitiva reduziu (professores e colegas de sala perceberam que eu estava em déficit), no ballet (que eu praticava desde criança), também houveram conflitos, tive de escutar calada: “pare de comer”, e mesmo não tendo sido a melhor forma empática de expressão e a melhor forma de se ouvir e eu também queria entender como ganhara 10 quilos em apenas um mês, praticando o dobro de atividades físicas, comparado ao ano anterior. ALGO ESTAVA MESMO FORA DO LUGAR.

Busquei novos horizontes, fui ao endócrino que cuida de mim desde pequena e na mesma consulta, reconhecendo sinais e sintomas, ele deu certeza de que se tratava de um adenoma hipofisário: “trataremos de forma convencional! Cirurgia é só em último caso.”

Desta forma fizemos! Mas o danado cresceu! E comprimiu o nervo óptico (estrutura adjacente). A cirurgia seria de urgência ou eu poderia perder a visão. Pedi uns dias para realizar provas e vestibulares (estava inscrita para 5 certames, fiz apenas 3. Tinha de garantir o futuro). A voz do médico ecoava aos meus ouvidos: “É de urgência.” Segui para a internação. Minha auto segurança era tanta por ali, que quis conversar com todos os pacientes da minha ala antes de entrar para o bloco cirúrgico. Queria saber histórias e dividir a minha, que com 16 para 17 anos, já era densa de acontecimentos. Quando fui chamada pelo maqueiro, todos os pacientes saíram dos seus quartos e ao redor da minha maca, fizeram uma oração. Naquele momento de fé, retribuição de carinho, gestos de amor das pessoas, por mais que eu já estivesse encontrado com dificuldades e erros na vida, o que importava em minha história era sentir aquela força indescritível, enquanto a minha maca tomava distância da ala e os meus olhos mareados de lágrimas de FELICIDADE me davam certeza de que tudo já tinha dado certo, no destino futuro era o bloco cirúrgico!

Essa certeza, tranquilidade e confiança fizeram total diferença na cirurgia, que durou menos horas que o normal. 2/3 da hipófise foram embora junto com o tumor. Mas eu acreditava que este 1/3 estava apto a exercer todo seu papel.

Dias depois, os resultados dos vestibulares saíram… passei em todas que pude fazer! As portas se abriram. Pude escolher em qual Faculdade entrar para iniciar outra parte da minha história. Ainda tomando medicamentos que controlavam funções básicas do meu corpo como urina… aos poucos a hipófise tomou o seu lugar e seguimos adiante, juntas!

Era chegada a hora de começar na Faculdade. E no primeiro dia, diante do portão do prédio, olhei para trás e lá estavam no carro a minha mãe e meu irmão, ainda bebê, que repousava suas mãos gordinhas na janela e entre elas o seu rostinho fofo e rosado, me indagava: “que lugar é esse?” Já a minha mãe, piscava lentamente, balançando a cabeça de forma assertiva e sorria orgulhosa.

As portas da Faculdade de Fisioterapia se abriram e eu entrei com toda a minha garra!

 

(continua)

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