por Claudia Barbeito

Eu era apenas uma criança, com certa dificuldade em socializar, embora todos achassem que eu era “super simpática”, do tipo “dada”, vai com todo mundo. Até que veio uma crise – eu me lembro de flashs. Falarei no presente, como se eu tivesse 6 ou 7 anos, aproximadamente.

“Estou na sala e tem uma cortina grande. Me escondo atrás dela e choro muito. Não quero que ninguém chegue perto de mim. Minha mãe, apavorada, chama a vizinha do andar de cima. Eu não lembro o que aconteceu. Minha mãe também não sabe dizer. Ela diz que eu falo com pessoas que não existem. Eu tenho um primo de “Umbanda” e eles começam a fazer um tratamento espiritual em mim.”

Esse foi o primeiro de muitos episódios, que me faziam entrar cada vez mais para dentro de uma “caixa interior”. Eu amava ir à casa desse meu primo, eu tinha uma relação de afeto por ele, muito grande. Tive a oportunidade de dizer isso a ele antes de ele falecer, embora ele já não estivesse mais interagindo com o mundo. Lá tudo era ritualístico, eu sempre apreciei rituais. Não lembro se confiava naquelas coisas, mas lembro que me sentia bem de estar com ele, sendo cuidada. Na escola, terceira série primária, a minha professora me expôs ao ridículo, mostrando o meu caderno para a turma. Era caderno deitado, eu entendia tudo ao pé da letra e executava assim. Ela pedira para nós passarmos para linha de baixo apenas quando terminasse a linha toda. Fui direto, de uma página à outra até passar para a linha de baixo. Quando ela pegou para corrigir, ria muito e mostrou para todos. No fim da aula eu estava toda suja, de cabeça baixa e só queria a “tia Marilda” – uma espécie de inspetora – fiz cocô nas calças.

Tinha muita vergonha da minha dificuldade em aprender. Queria estar entre os melhores da turma. Sempre estudei muito, mas os resultados nunca foram fora dos medianos. Eu sofria e a forma que eu encontrava para aliviar meu sofrimento era me autopunindo com reações físicas – cabeçadas na parede sempre foi a minha especialidade. Um dia, até o padre da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, na rua Adriano, no Meier, veio para me “exorcizar”. Passei a frequentar a igreja assiduamente.

Adolescente eu sentia muita angústia existencial e sempre ouvia do meu pai que “eu tinha de tudo”, precisava parar de arrumar problema onde não existia.

Aos quinze anos fui procurar terapia por conta própria. De lá pra cá faço terapia direto e sempre esbarro em situações de disfarce emocional. Algo como: sorrir quando estou quebrada por dentro – sempre houve uma cobrança muito forte por parte do meu pai para sermos felizes. Ele foi um homem muito positivo com relação à vida e achava que se ele conseguiu, passando por todas as dificuldades que ele passou, porque eu, que tinha tudo: amor, carinho, boa casa, pais bem casados, irmãos, saúde, boa escola… não seria?

Aos 17 anos, entrei para a faculdade de Pedagogia, mas sonhava em ser cientista da NASA. Amava um telescópio. Eu sabia, tinha consciência que não conseguiria. Não obstante, fui estudar filosofia e ali eu conseguia disfarçar todas as minhas emoções. Estudar filosofia foi um bálsamo em minha vida. Racionalizava tudo. Encontrei Espinosa e nele me agarrei. Nietzsche era uma espécie de fuga da realidade, Freud me ajudava com seus conceitos edipianos e Jung alguém que só faria sentido anos, muitos anos depois… Meu sofrimento fazia sentido para mim. Eu o entendia e conseguia disfarçar. O que eu fazia comigo não importava… Tentei suicídio duas vezes, batia com a cabeça na parede sempre que algo fugia ao meu controle, me arranhava, e me recolhia ao meu mundo interior quando estava em público. Era como se nada existisse além de mim. Não ouvia, nem via ninguém. Eu quase sempre consegui essa proeza… bati em alguns amigos de colégio, avancei em motorista de ônibus, pulei a catraca do metrô porque me senti desrespeitada e gritei com um monte de policiais que queriam me levar para delegacia – na ocasião, minha secretária estava comigo e apaziguou a situação, dizendo que eu não estava bem, fazendo sinais com a mão de que eu era meio doida. Eu sempre agia assim, de um extremo ao outro. De momentos de fúria. Meu pai internado no Inca, na UTI, eu gritei com um dos meus irmãos e entrei no meu universo, não sem antes me machucar, evidente.

E TODOS que me veem, dizem a mesma coisa: você é tão tranquila, passa uma paz, tem uma força interior, é tão simpática, todo mundo gosta de você. Não é bem assim. Infelizmente, aprendi a disfarçar para sobreviver. Meu ex-marido, se abrisse a boca para contar todas as minhas crises, ele escreveria um livro! Aliás, ele permitia eu ser quem eu era. Foi depois dele que eu comecei a tratar de verdade das minhas compulsões por comida, por compras, por limpeza.

Hoje, vivo com a minha mãe. Somos só nós duas. Ela aprendeu a me respeitar e a me acolher do jeito que eu preciso. Sei que fiz muito mal às minhas filhas, em diversos momentos, falando que queria morrer, me machucando, mas elas nunca me viraram as costas. NUNCA! Eu ainda não consegui me perdoar por isso, sei que esse dia chegará!

A depressão não tem cara. Conviver com ela é como estar em uma constante montanha russa. Existe tratamento. Nem sempre ele dá conta em mim, mas tenho certeza que se eu estivesse sem ele as crises seriam muito piores. Ficar sem terapia e sem psiquiatra é como tentar suicídio. Não quero morrer tão cedo. Quero viver bem, mais e melhor a cada dia. Esse foi o grande aprendizado que tive da minha terapeuta do Rio de Janeiro, Celina Gavino. Depois que senti as palavras, nunca mais me abandonei. Mas é preciso se despir do preconceito e agir em prol de si mesmo. Ninguém, absolutamente NINGUÉM é capaz de construir a minha vida, além de mim mesma. Sigo em tratamento pelo CAPES, na Cidade onde moro, Saquarema, com a psiquiatra Dra. Mendala e a terapeuta ocupacional, querida Carol. E faço análise com a Márcia Pitanga. Tudo isso reunido me mantém de pé.

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