Estresse e ansiedade podem ter sido responsáveis pelo agravamento de doenças crônicas de pele na pandemia

Psoríase, vitiligo e dermatite atópica são principais doenças crônicas de pele que geraram queixas durante a pandemia; saiba mais

Na reportagem, você ficará sabendo que:
– O sofrimento emocional provocado pela pandemia pode potencializar ou desencadear doenças crônicas de pele;
– As células que originam a epiderme possuem ligação próxima com células nervosas, conectadas diretamente ao sistema cerebral;
– Que as patologias de pele mais ligadas ao estresse e ansiedade são psoríase e vitiligo;
– O tratamento, no caso da relação entre doenças de pele e saúde mental, precisa ser multidisciplinar.

Quando se viu isolada, em casa, sem poder ver as irmãs e as amigas nos primeiros meses da pandemia de covid-19, Sonia da Silva, de 71 anos, começou a observar uma coceira na pele mais intensa do que a habitual. Desde jovem, ela usava pomadas e cremes paliativos toda vez que um ‘vermelhidão’ surgia.

“Eu sempre me cocei muito desde novinha, normalmente nas pernas, braços e orelha, principalmente por tingir muito o cabelo. Mas nessa pandemia eu me via no espelho e me achava um monstro. Minha pele ficou em ‘carne viva’. E quanto mais eu tinha contato com notícias da pandemia, a situação ia piorando. Foi desesperador”, conta.

Depois de muita insistência da filha, Sonia foi a um dermatologista que, enfim, deu o diagnóstico de dermatite atópica. “Se eu soubesse disso antes, tinha cuidado mais da minha pele. Agora sei que preciso ficar atenta, não só nos primeiros sinais de coceira, mas fazer as manutenções que ele recomendou: muita hidratação e relaxar um pouco”, disse.

Já é consenso na literatura que os sintomas de estresse e ansiedade são tanto potencializadores quanto desencadeadores de doenças crônicas de pele, em especial a psoríase e o vitiligo. “Uma das explicações está no fato de que as células que originam a epiderme possuem uma ligação muito próxima com células nervosas, conectadas diretamente com o sistema cerebral. Desta forma, o que tem se observado é que muitas dermatoses crônicas podem ser desencadeadas ou agravadas a depender do estado emocional do indivíduo, de forma que as oscilações emocionais podem prejudicar o quadro clínico do paciente (Melo, Rocha, Magalhães & Sousa, 2019)”, explica a psicóloga Priscila Jandrey Brasco.

A psoríase é uma das doenças crônicas de pele pode ser desencadeada por estresse e ansiedade. (Crédito: Pixabay/milesz)

Priscila Jandrey Brasco alerta que o estresse, quando recorrente e vivido por longos períodos, influencia o desenvolvimento de diversos tipos de doenças: “A resposta ao estresse é dada através da ação integrada dos sistemas nervoso, endócrino e imunológico, num processo de alteração e recuperação do equilíbrio do organismo. Somente quando não há adaptação adequada ao estresse é que se desenvolve a doença (Castoldi, Calvetti, Lages, Rocha, Carvalho & Sousa, 2005)”.

Na análise da psicóloga, é possível atribuir o surgimento ou agravamento de doenças de pele ao adoecimento emocional desenvolvido durante a pandemia do novo coronavírus: “O estresse recorrente, neste caso causado pelo distanciamento social e as incertezas acerca dos prejuízos do vírus, podem ser considerados fatores de risco para a piora em quadros de doenças crônicas, dentre elas, as dermatoses”.

Talvez, por isso, o isolamento social e a pressão emocional vividos por Sonia da Silva tenham potencializado a dermatite crônica. “O que me ajudou um pouco também foi o Whatsapp. Isso porque comecei a trocar mais áudios com minhas irmãs e amigas. Parecia uma terapia diária, porque todo mundo ficava desabafando. Me senti menos sozinha”, ressalta.

Priscila Jandrey Brasco menciona um estudo feito por Castoldi et. al (2005), que identificou que entre os fatores estressores mais registrados em pessoas com problemas dermatológicos encontram-se as situações de perdas e separações. “Diante disso, é possível fazer uma clara associação entre os acontecimentos vivenciados durante a pandemia como por exemplo, possibilidades de morte (própria ou de entes queridos), sintomas refratários advindos do contágio do vírus, entre outros e o aparecimento de psicodermatoses”, enfatiza.

Doenças dermatológicas na pandemia de covid-19

Para falar especificamente sobre as doenças dermatológicas que mais surgiram ou ficaram evidentes durante a pandemia do novo coronavírus, nós conversamos com o dermatologista Guilherme Muzy. Confira:

Com sua experiência, quais foram os principais problemas de pele relatados após o início da pandemia de covid-19?

Houve uma dicotomia interessante! Enquanto alguns pacientes passaram a se preocupar mais com a aparência por conta das reuniões online, outros se descuidaram um pouco mais por conta das alterações na rotina. Vimos pacientes de melasma que melhoraram por se exporem menos ao sol, mas também pacientes que pioraram pois deixaram de usar protetor solar conforme recomendado.

Além disso, alguns pacientes com doenças como psoríase e dermatite atópica tiveram melhora dos seus quadros por poderem se cuidar um pouco mais agora que não perdem mais tempo no trânsito, mas também tivemos pacientes que tiveram piora considerável do quadro por dificuldade de seguimento médico.

Percebe que o estresse e ansiedade agravam ainda mais os quadros de doenças crônicas associadas à pele?

Sim. É notório que ansiedade e estresse não causam doenças como psoríase e dermatite atópica, mas são fatores que podem levar a piora significativa do quadro. Muitos pacientes relataram que passaram a trabalhar de forma mais intensa e dormir menos, o que pode ser um fator a mais para piorar o quadro.

Quem mora no Sudeste lida com as oscilações do tempo e, às vezes, em um único dia. Quais dicas para manter a saúde em dia são importantes, independente do tempo e temperatura?

A melhor sugestão é sempre manter adequadamente seu tratamento conforme orientação de seu médico dermatologista. Fora isso, caso note que o clima está muito seco, capriche na hidratação da pele com uso de hidratantes em abundância!

Dicas para pacientes com doenças crônicas de pele e ansiedade

Se você percebe uma relação entre suas angústias e ansiedades e o surgimento ou agravamento dos sintomas de doenças crônicas de pele, fique atento, pois o tratamento exige um atendimento multidisciplinar.

É fundamental relatar para o profissional que acompanha o caso, geralmente o médico dermatologista, que foi identificada essa associação entre os sintomas emocionais e o agravamento da dermatose.

“O tratamento psicodermatológico consiste na ação multidisciplinar entre as áreas da dermatologia, psiquiatria e psicologia, sempre visando auxiliar da melhor forma o paciente, no controle da dermatose e seus sintomas psicológicos associados (Azambuja, 2017). A ação dessas três áreas em conjunto é importante pois, separadas, podem não conseguir alcançar o mesmo patamar de benefício para o paciente”, pondera a psicóloga Priscila Jandrey Brasco.

Com o acolhimento destes profissionais, o paciente pode aprender a manejar suas emoções e frustrações, controlando a dermatose e impactando positivamente na qualidade de vida.

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