‘Profissionais de saúde não são treinados para atentar às necessidades de mulheres negras’, afirma médica de família Rita Borret

População é a que mais sofre violência obstétrica e mortalidade materna no Brasil

A mulher negra é a principal vítima de feminicídio, das violências doméstica e obstétrica e da mortalidade materna no País. Além disso, ela está na base da pirâmide socioeconômica. O Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha é celebrado em 25 de julho. No Brasil, a data homenageia a líder quilombola Tereza de Benguela, símbolo de luta e resistência.

Entender esse lugar da mulher negra, entre opressões de gênero e raça, é importante para entender as especificidades que o cuidado em saúde dela demanda. E é uma situação de extrema vulnerabilidade, como ressalta a médica de família Rita Borret: “É importante reconhecermos que historicamente as mulheres negras sempre estiveram no mercado de trabalho, realizando funções de cuidado e da casa e das pessoas que não de sua família, de limpeza e outras profissões na subalternidade. Algo que permanece até hoje. Outra questão importante de ser apontada é como a mulher negra sempre foi objetificada e hipersexualizada no país, na imagem social da mulata do carnaval”.

As extensas jornadas de trabalho, sem a possibilidade de conseguir ir ao médico em horário comercial, afastam cada vez mais a mulher negra do acesso à saúde. Além disso, Rita Borret, coordenadora do GT de Saúde da População Negra da SBMFC e presidente da Associação de Medicina de Família e Comunidade do Estado do Rio de Janeiro, chama atenção para a violência obstétrica, “Mulheres negras recebem menos anestesia no parto do que mulheres brancas, talvez pelo imaginário social coletivo de que a mulher negra é mais forte e mais resistente a dor. Mulheres negras são maioria entre situações de violência doméstica e obstétrica, resgatando a ideia de que mulheres e negras estão na condição de sub humanidade e, portanto, seu corpo pode ser usado como objeto. Mulheres negras têm menos consultas de pré-natal, maior mortalidade materna, menos acesso a exames preventivos de mama e colo do útero. Esses dados apontam para o não reconhecimento de especificidades das mulheres negras e não garantia de acesso com equidade”, conclui.

Rita Borret, médica de família (Foto: Reprodução)

Além disso, algumas doenças acometem mais as mulheres negras no Brasil: a anemia falciforme, que atinge de 6% a 10% delas, e diabete tipo 2 – esta atinge 50% mais mulheres negras do que brancas.

O índice de morte da mulher negra durante a gestação, o trabalho de parto e o pós também é alto. Diante desse cenário, o SUS pode adotar uma série de medidas, como ações educativas para a gestante, que deve ser orientada sobre os riscos de hipertensão arterial e diabetes mellitus, a necessidade da triagem neonatal, que inclui o diagnóstico da anemia falciforme.
Também é necessário um programa de sensibilização e treinamento de profissionais de saúde, incluir conteúdos sobre diferenciais étnico/raciais nas condições de vida e na saúde da população nas capacitações de profissionais da rede básica e dos serviços de referência e das maternidades. “De uma maneira geral, profissionais de saúde não são treinados para atentar para as necessidades em saúde dessas mulheres, o que contribui para que reproduzam, seja consciente ou inconscientemente, o racismo na instituição da saúde. São as mulheres negras que recebem menos cuidados no pré-natal, têm menos exames preventivos realizados, vivenciam mais situações de violências (que tendem a ser sempre subnotificadas). É um panorama de saúde pouco acolhedor, não integral ou equânime”, afirma a médica Rita Borret.

E não é possível falar da saúde da mulher negra sem mencionar a questão mental. O que significa para uma mulher passar o dia cuidando da casa e crianças dos outros e não ter tempo ou energia para cuidar da sua? Ou estar sobrecarregada fazendo as duas coisas? Como é para uma mulher negra viver com a expectativa do filho ser assassinado pelo estado que mata jovens negros cotidianamente? Como é viver com a expectativa de ter algum familiar preso ou morto por um estado racista? Ou criar os filhos ensinando sobre como se proteger dessas situações? Ansiedade, angústia, tristeza e falta de esperança são comuns diante da sensação de estar à margem dos cuidados.

A psicóloga Leonara Silva (Foto: Reprodução)

A psicóloga Leonara Silva, mestre em Saúde Comunitária e doutoranda em Saúde Pública pelo Instituto de Saúde coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA), afirma que o acesso da mulher negra à psicoterapia, tanto nos serviços públicos quanto privados, não é fácil. “Muitas vezes o horário de funcionamento dos serviços públicos não consegue abarcar essas mulheres por conta do horário de trabalho delas, ausência de profissionais suficiente para a demanda. Além disso, para as mulheres negras que não apresentam recursos financeiros, há dificuldades para pagar uma profissional, além dos aspectos de mobilidade para chegar aos serviços quando estes estão fora do território. As que apresentam recursos financeiros para pagamento particular, queixam-se de interrupções no tratamento por perceber que os impactos do racismo e machismo não são validados por profissionais que atendem, por exemplo”, avalia a especialista em Terapia Cognitivo Comportamental.

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