Afinal, quem cuida dos cuidadores?

Por Eloyse Davet

Gostaria de iniciar meu texto colocando meu lugar de fala e como cheguei até aqui. Meu nome é Eloyse Davet, tenho 25 anos, sou licenciada em História e atualmente sou mestranda no Programa de Pós-graduação em Patrimônio Cultural e Sociedade da Universidade da Região de Joinville (Univille), instituição onde também me graduei. Minha pesquisa de dissertação é intitulada: “Quem cuida das cuidadoras? A construção da subjetividade de cuidadoras e o Cuidado de Si”.  É a primeira vez que estou escrevendo um post para um blog em toda a minha vida, esse desafio que me foi proposto me empolgou muito e fico feliz em poder compartilhar um pouco mais sobre meus pensamentos e pesquisas com vocês.

Minha proximidade com o tema dos cuidados vem decorrente de um longo processo de iniciação científica desde o segundo ano da graduação. Eu sou uma pessoa que gosto de ajudar as pessoas e me sinto satisfeita fazendo isso. Assim, em 2015 eu me voluntario para participar de um projeto da minha orientadora, professora Dra. Raquel Alvarenga Sena Venera, a fim de captar o acervo audiovisual da pesquisa que ela havia iniciado. A pesquisa consistia em colher histórias de vida de pessoas com Esclerose Múltipla aqui em Joinville.

Nessa primeira fase do projeto foi possível que nós nos aproximássemos de cinco pessoas. Como eram minhas primeiras aproximações com o campo da pesquisa empírica eu estava muito empolgada e queria muito conhecer mais um pouco sobre cada uma daquelas histórias.

Assim, a cada novo encontro eu ficava fascinada com as narrativas. Algumas muito duras, especialmente aquelas que aludiam ao momento do diagnóstico e aceitação da doença. Em nossas entrevistas, ouvíamos apenas a pessoa com EM e seus cuidadores ficavam ali, como coadjuvantes daquele momento. Isso começou a me intrigar demais, porque mesmo que nosso foco fosse a pessoa com EM, eu pensava não seria possível de ela estar ali, em frente as câmeras contando sua história, se não fosse por sua cuidadora ou cuidador.

Ou seja, aquelas pessoas que estavam ali ao lado participavam de todo o processo para que as entrevistas pudessem acontecer, cuidando e dando suporte em todos os momentos e mesmo assim continuavam ali, como coadjuvantes e em alguns momentos serviam também como uma espécie de “HD externo” dos nossos entrevistados.

Tendo em vista que essas pessoas, os cuidadores, acompanharam vários dos momentos narrados por nossos entrevistados era curioso ver como eram acionados quando estes se esqueciam de detalhes, datas ou nomes dos envolvidos nas narrativas que nos apresentavam. Alguns cuidadores, por vezes, respondiam as perguntas que fazíamos, mesmo que elas fossem endereçadas aos cuidados. Esse foi o detalhe que me fisgou ainda mais a atenção.

Cuidadores e pessoas cuidadas estão sempre numa relação tão próxima que, por vezes, chegam a confundir suas próprias identidades. É nesse momento que se iniciam algumas preocupações com esse nível de limites, ou falta deles, entre essas relações de poder que são exercidas entre cuidador e pessoa cuidada.

Eis que então surgem as perguntas: até onde vão os limites nas relações de cuidado? Como se impor perante sua vida sem parecer egoísta decidindo não ser cuidador 24 horas por dia? Se eu não me cuidar, quem é que vai cuidar de mim? Afinal, quem cuida do cuidador? Todas essas perguntas são muito complexas para se responder e inicio provocando você, que cuida de alguém, a se perguntar: como eu me cuido? Será que eu penso que é preciso que eu esteja bem em primeiro lugar, antes de querer ajudar alguém? O que tenho feito por mim?

Pois bem, estas são algumas reflexões que julgo importantes para início dos debates acerca do cuidado. As relações de cuidado e cuidadores são pauta de pesquisas, reportagens e até mesmo livros e estão ganhando cada vez mais destaque, especialmente neste momento em que estamos vivendo.

O autocuidado precisa ser uma prática diária, mesmo que quase impossível em meio a tanta dúvida e medo que estamos vivendo. Contudo, gostaria de destacar que as práticas de cuidado são subjetivas a cada pessoa e mesmo que possam parecer atividades ínfimas como, por exemplo, tomar um café sozinha durante 5 minutos em meio a levar o filho na escola e o horário de voltar ao trabalho, esse é o momento em que você dedica somente para si.

É preciso dar valor aos momentos em que fazemos algo que nos dá prazer, buscando sempre dosar o sentimento de culpa que pode decorrer disto. Não se sinta egoísta por querer ter seu tempo pra assistir uma série, tomar um banho demorado, sair sozinho ou ter um momento de silêncio só seu. Você que está lendo este texto está praticando o autocuidado, pois parou alguns minutos da sua rotina para ler o que escrevi. Espero que, de alguma forma, eu possa contribuir para reflexões sobre você e sua vida. Você, cuidador, lembre-se de que por mais difícil que toda situação possa parecer, você não está sozinho. A CDD está aqui de braços abertos para te receber e dar o colo que você, por vezes, você precisa. Não sinta que está incomodando ao procurar ajuda ou ao desabafar. Fale o que sente, compartilhe conosco, seja através do grupo de WhatsApp, Facebook, ou pelo nosso site. Juntos somos mais fortes.

Compartilhe!!!

Share on facebook
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on linkedin
Share on google
Share on email
Scroll to Top