‘As pessoas se chocam quando descobrem que sou trans, por um cadeirante ter autonomia na identidade de gênero’, declara jovem com paralisia cerebral

No mês do Orgulho LGBT+, conheça a história de quem enfrenta estereótipos e preconceito no dia a dia

Aos seis meses de vida, Kollinn Costa Benvenutti teve convulsões por causa da imunidade baixa. O quadro clínico causou sequela no lado direito do cérebro e a paralisia cerebral atrasou sua coordenação motora.
Hoje, aos 23 anos de idade, ele afirma que a maior adversidade por viver com uma deficiência não é em relação à acessibilidade, mas aos estereótipos sociais. “Um paradigma que é construído por séculos e séculos que faz a sociedade achar que somos incapazes de realizar atividades corriqueiras. O capacitismo enraizado nas pessoas nos coloca em uma posição desagradável dentro da sociedade, como “o exemplo de vida”. Aí deixo uma reflexão: se eu sou exemplo de vida por simplesmente estar vivendo, então todos são exemplos de vida, pois todos nós temos alguma limitação que não precisa ser necessariamente distinguida como deficiência”, afirma.

Kollinn Costa Benvenutti mora em São João Batista, Santa Catarina. No ano passado, as dúvidas em relação à sua identidade de gênero se intensificaram. “Eu comecei a ter mais estabilidade emocional, percebi que algo estava faltando e comecei a fazer várias análises. Percebi que estava insatisfeito comigo mesmo, com o meu eu, com minha aparência, com o meu gênero. Aí, comecei a me questionar se eu era não-binária, ou seja, eu não me identificava nem como homem, nem como mulher. Mas algumas vezes eu me vestia com roupas masculinas e me sentia muito mais confortável do que quando me vestia com roupas femininas. Com isso fui pesquisando sobre transgeneridade e foi quando tive certeza que eu me identificava com homem trans. Me assumi para minha mãe e comecei aos poucos a me transicionar: cortando cabelo, trocando roupas e assim por diante”, relembra.

Por precisar usar cadeira de rodas, Kollinn nota que muita gente acredita que é incapaz de fazer coisas do cotidiano. “Minha deficiência é bem visível, por usar cadeiras de rodas. Então, quando alguém me vê automaticamente, vem os pensamentos de que eu não faço as coisas que faço, como trabalhar, estudar, ser um bom profissional, ter vida amorosa, sexual e social ativas. As pessoas acham que vivemos em um mundo onde todas as nossas coisas ao redor são inocentes e monótonas”, desabafa. E o jovem vai além: “Eu tenho uma grande passabilidade, ou seja, as pessoas me vêem e não dizem que eu sou trans. Por verem minha deficiência, não acham que tenho autonomia da minha sexualidade e identidade de gênero, então, quando descobrem que sou trans, o choque vem, por um cadeirante ter autonomia na sua identidade de gênero’, conclui.

A psicóloga Desirèe Monteiro Cordeiro, integrante do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual (AMTIGOS), do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq-SP), lembra que a homofobia pode se intensificar quando o indivíduo tem alguma deficiência, aparente ou não. “Ela já é, na maior parte das vezes, excluída socialmente. Agora acrescente mais uma vulnerabilidade na lista, no caso a LGBT e especificamente a questão de gênero, e essa exclusão aumentará, indubitavelmente. Sem contar as questões de a própria pessoa conseguir lidar com as suas dificuldades sociais associadas”, avalia.

A especialista é membro da World Professional Association for Transgender Health (WPATH), uma associação mundial de saúde de transgêneros. Com a experiência que tem na área, Desirèe Monteiro Cordeiro é enfática: “Em casos onde existe sobreposição de vulnerabilidades, a discriminação aumenta. Por exemplo: uma pessoa trans que tenha paralisia cerebral. Você acha que ela é respeitada no seu desejo de ser como se sente? As pessoas a validam? Na maioria das vezes a resposta, infelizmente, vai ser negativa. Em alguns casos em que as questões de saúde física demandam maior dependência das pessoas, existe a grande possibilidade dela não ser validada em sua existência, principalmente no que diz respeito a expressão de seu gênero e de sua sexualidade”, lamenta.


Apesar de todo esse contexto de discriminação social, a pessoa que é LGBT+ e que convive com alguma deficiência ou doença crônica deve procurar apoio psicológico. Ao se conhecer melhor, conseguirá aumentar a autoestima e se respeitar. Uma rede de apoio também a fundamental, seja na família ou com grupos de pessoas que passam pela mesma situação.
É importante lembrar que a sensação de vulnerabilidade pode estar associada a questões psiquiátricas. “Sabemos que a população LGBT tem quatro vezes mais chance de desenvolver quadro depressivo ou ansioso e também de ter ideação suicida e/ou tentativas de suicídio. Por isso, é fundamental cuidar dessa população. Importante destacar que esse panorama aumentado não tem a ver com o ser LGBT, mas sim com a vulnerabilidade social imposta e vivenciada por estas pessoas. Se elas forem acolhidas em suas vivências, esse quadro pode se reverter”, conclui a psicóloga Desirèe Monteiro Cordeiro.


O que é LGBTfobia?

Homofobia é uma série de atitudes de antipatia, desprezo e preconceito em relação a homossexuais. É um comportamento hostil e violento contra todo tipo de orientação sexual não-heterossexual. Em 13 de junho de 2019, o Supremo Tribunal Federal considerou crime a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero. A maioria dos ministros do STF entendeu que o crime passa a ser punido pela Lei de Racismo, que hoje prevê crimes de discriminação e preconceito por “raça, cor, etnia, religião e procedência nacional”.

O termo LGBTfobia não é tão conhecido. Tecnicamente, contempla toda e qualquer agressão que se refere à população lésbica, gay, bissexual e transgênera.

Junho é considerado o mês do Orgulho LGBTQIA+. Em 28 de junho de 1969, em Nova Iorque, pessoas que frequentavam o bar Stonewall Inn, até hoje um local de frequência de gays, lésbicas e trans, reagiram a uma série de batidas policiais que eram realizadas ali com frequência. O levante contra a perseguição da polícia durou mais duas noites e, no ano seguinte, resultou na organização na 1° Parada do Orgulho LGBT. Hoje, os eventos ocorrem em quase todos os países do mundo e em muitas cidades do Brasil ao longo do ano.

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