Como lidar com a ansiedade, depressão e bipolaridade em um relacionamento amoroso?

Cobranças do companheiro que não tem histórico em saúde mental podem atrapalhar a vida dos casais; entenda

Você já ouviu falar da conhecida ‘DR’ ou, traduzindo, ‘discussão de relacionamento’? Aquele bate-papo muitas vezes desagradável, que uma das partes não quer falar sobre, mas que pode ser necessário para que a relação ande ‘nos trilhos’? Essa conversa pode se dar por motivos variados: algum mal entendido, ciúme, comportamentos ou pensamentos conflitantes, gostos diferentes.

“Os relacionamentos amorosos são um desafio para qualquer ser humano. Mais para uns que para outros, dependendo de alguns fatores como: grau de experiência, habilidades socioemocionais natas ou desenvolvidas, diferenças culturais, crenças religiosas, só para citar algumas questões envolvidas em um relacionamento amoroso”, enumera a neuropsicóloga Gisele Calia.
Agora, imagine um namoro ou casamento em que um dos dois tem diagnóstico de transtorno mental ou sofrimento emocional? Como o diálogo se estabelece, afinal de contas, muitos sintomas podem ser invisíveis?
“Transtorno Mental é em si uma questão muito complexa pelo fato de envolver o funcionamento de áreas do cérebro suscetíveis a influências biológicas e do meio ambiente muito significativas. Um transtorno mental é uma doença tanto quanto uma doença física. Mas, diferentemente de doenças físicas, os sintomas apresentados pela pessoa acometida pelo TM são facilmente confundidos com características de personalidade e, por isso, tratados de forma equivocada. Para uma pessoa que tenha TM é comum dizerem que ela está triste ou irritada porque ela “é assim”, “é característica dela” e, pior, “ela não muda porque não quer”, porque é “teimosa”. O desconhecimento de como uma doença mental funciona ocasiona mais transtornos do que a própria doença em si, muitas vezes”, avalia Gisele Calia.
As doenças mentais, além de menos visíveis, têm sintomas parecidos com as emoções e os comportamentos de uma pessoa qualquer, que não sofra de um transtorno mental. Quem nunca conheceu alguém mais tristonho ou mais expansivo, ou mais briguento? “Você não olha para essas pessoas e diz logo: “você precisa se tratar, você está doente”, assim como faria com o gripado. Pode até ser que ela seja mesmo mais briguenta, mas pode não ser. Pode ser um sintoma de um Transtorno Mental. A confusão é comum e frequente”, ressalta a especialista.
No filme Coringa, Arthur Fleck declara: “A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não a tivesse”. Essa frase ilustra parte do que os pacientes sofrem em seus relacionamentos sociais e afetivos. “Dificuldade de serem vistos como de fato são, com suas peculiaridades na forma de se expressar, frustrando frequentemente com quem se relacionam, pois seu comportamento não preenche facilmente as expectativas do outro”, cita Gisele Calia.
Wellington Souza relata que sofreu muito nos últimos anos de casamento. Começou a sentir uma tristeza meio sem explicação. E a sensação o fez perder o interesse em atividades que antes apreciava, começou a ficar mais desanimado para tudo e se sentir horrível consigo. “Minha esposa perguntava o que eu tinha, mas eu não conseguia explicar. Na verdade, eu não tinha nem forças ou ânimo para tentar explicar. Até o ponto em que ela começou a dizer que eu não estava mais dando atenção pra ela e que o problema estava em nossa relação. Nos separamos e, tempos depois, ao procurar um psiquiatra, soube que estava com depressão”, conta. A história de Wellington é mais comum do que se imagina.
Mencionamos aqui alguns transtornos que podem ter sintomas confundidos com tristeza, preguiça ou agitação. É importante conhecê-los, especialmente para quem está amorosamente envolvido com a pessoa que sofre de algum transtorno mental. Quanto mais nos informarmos, menos estigmas teremos e mais recursos desenvolvemos para lidar com a situação.
A neuropsicóloga Gisele Calia listou alguns transtornos mentais como depressão, ansiedade, transtorno afetivo bipolar, borderline e esquizofrenia que, apesar de divergirem entre si, carregam algumas características em comum, especialmente na relação que estabelecem com as pessoas:
  • Tendência a falar muito só de si mesma e de seus interesses ou problemas, acarretando pouco espaço para o outro em uma relação.
  • Percepção divergente da realidade comum, acarretando interpretações equivocadas de fatos, sentimentos e emoções.
  • Pouca facilidade de olhar para si próprio e reconhecer falhas – a culpa é sempre do outro.
    Maior rigidez de pensamento e ações – pouca flexibilidade e baixa transformação dos padrões de comportamentos pouco adaptativos.
  • Imprevisibilidade de ações e grandes alterações de humor sem causa aparente – o parceiro fica sem saber o que esperar e por que mudou o clima.
“Do ponto de vista da pessoa que tem TM, a principal angústia ao se relacionar com outra é a de que, ao não corresponder às expectativas, ser pressionada a mudar, a “superar” suas dificuldades. Não se trata de querer ou não querer mudar, trata-se de não ter controle sobre isso. Seria o mesmo que pedir para uma pessoa com astigmatismo, que tentasse enxergar “melhor”. Não depende da vontade. Os parceiros de pessoas com TM caem frequentemente nessa armadilha. Sem querer”, enfatiza Calia.
O conhecimento sobre as doenças mentais auxilia no manejo das relações. O tratamento é complexo e deve ser conduzido por especialistas. Por outro lado, cada tipo de transtorno tem peculiaridades que podem afetar de forma diferente seus parceiros amorosos. “Se para um parceiro de uma pessoa com depressão o mais difícil pode ser, por exemplo, ficar ao seu lado mesmo nos dias em que ela queira desistir “de tudo”, para o parceiro de um esquizofrênico, o mais difícil pode ser justamente ter que se afastar quando alucinações ou surtos coloquem a vida de ambos em perigo. Viver com um ansioso crônico pode ser um desafio para se conseguir momentos de relaxamento e prazer a dois, mas, relacionar-se com uma pessoa bipolar pode significar uma gangorra de emoções nem sempre positivas”, afirma a neuropsicóloga.
Ela lembra que, em qualquer uma das situações que você estiver, o fundamental é considerar que a escolha de permanecerem juntos deve ser mútua, madura e responsável. Ambos merecem respeito e dignidade, ainda que, algumas vezes, um desses lados não consiga controlar os fatores que desencadeiam crises, colocando em risco a estabilidade do afeto que os une.

Compartilhe!!!

Share on facebook
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on linkedin
Share on google
Share on email
Scroll to Top