Quem são os cuidadores?

Por Eloyse Davet

 

Após o outro texto em que iniciei a conversa sobre cuidadores, acerca da busca por cuidar de si, penso que é interessante trazer outra reflexão muito importante: será que pelo fato de eu cuidar do meu filho que tem alguma doença, dos meus pais que são idosos, do meu companheiro ou companheira de vida faz de mim um (a) cuidador (a)? Esta é uma questão que ainda estou refletindo muito, especialmente após ouvir as histórias de vida de três cuidadoras. Ao questionar o momento em que se percebeu como cuidadora, por cuidar da filha e dos pais que são idosos, me deparei com a resposta de que ela não se sentia cuidadora, mas sim mãe e filha. Este momento fez com que eu revisitasse todas as minhas “certezas” da pesquisa da minha dissertação, pois para mim estava claro que aquela mulher era uma cuidadora, porém ela mesma não se via como tal. Seria pelo fato de que ser cuidador ou cuidadora ainda está muito ligado a uma profissão? Ou então, por que ela nunca tinha parado para pensar sobre essa lógica? Penso que talvez seja algo ainda mais complexo, tendo em vista que ela nem sempre foi cuidadora – precisou tornar-se cuidadora em decorrência de algo que aconteceu em sua família, e esta é a realidade de grande parte dos cuidadores e cuidadoras familiares. Deste modo, nem sempre a identidade de cuidadora está ali presente na narrativa da pessoa, porém existem momentos em que ela se utiliza dela para acessar outros lugares de fala. Assim, vejo neste ato de transformar-se em cuidadora uma semelhança muito grande com a teoria da performatividade proposta por Judith Butler (1999), em que a pessoa passa a adquirir essa nova identidade em decorrência de um acontecimento, demonstrando assim que a identidade não é algo fixo.

Ao refletir sobre a minha vida, vejo que a identidade de cuidadora já esteve presente em momentos em que precisei cuidar da minha mãe após períodos cirúrgicos. Porém, também me vejo como cuidadora no sentido de que estou sempre atenta ao que as pessoas ao meu redor estão precisando, mesmo que elas não me falem nada. Vejo esta atenção redobrada como um ato de cuidado. Contudo, não tenho a intenção de equiparar esta disposição com a rotina de um cuidador que deixa de fazer as suas coisas para dar toda a atenção para outra pessoa. O que proponho é que possamos refletir sobre esse momento em que nos percebemos enquanto cuidadores. Será que isso é um processo automático? Ou será que é gradativo? Posso não me identificar como cuidadora e sim como: mãe, pai, filha, filho, companheira ou companheiro? Vejo que isso é algo muito particular e que vai depender de como cada um de vocês subjetive esse processo de construção de uma outra identidade. Quando penso identidade me refiro a uma relação direta com a diferença, como proposto por Antônio Flávio Pierucci (1990), tendo em vista que ao assumir a identidade de cuidador você deixa claro que não é várias outras coisas como: médico, enfermeiro, fisioterapeuta, etc. Ou seja, existe uma relação de poder entre o ser e o não ser, bem como também na duração, tendo em vista que a pessoa se torna cuidadora, e não nasce cuidadora. É como pensar sobre a famosa frase “ninguém nasce mulher, torna-se mulher” (BEAUVOIR, 2009, p. 361). Pensando pelo ponto de vista de Simone de Beauvoir, podemos dizer que ninguém nasce cuidador ou cuidadora, e sim torna-se.

Você, que pode estar nesse momento cuidadora ou cuidador há um longo tempo, talvez nunca tenha percebido esta outra identidade que dispõe. Já você que está iniciando neste caminho, em meio a processos de aceitação de diagnóstico, mudanças de vida e lutos, não se preocupe tanto com assumir algo que você pense não estar preparado. É preciso estar atento as mudanças de rotinas, tratamentos, restrições e conhecimento sobre o que a pessoa que você cuida sente, porém não busca tomar para si tudo isso. Longe de mim dizer o que cada um de vocês deva ou não fazer; não é esse o meu intuito. O que busco trazer para as nossas conversas, por meio destes textos, é que você não se coloque de lado por estar na condição de cuidador de outra pessoa. Que você se lembre que é preciso se cuidar para cuidar de alguém. Esse cuidado não está restrito ao corpo físico, mas também mental e até mesmo espiritual. É preciso estar em harmonia consigo mesmo para poder estar à disposição do outro.

 

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