EoE em crianças: quando a dificuldade para comer merece atenção
A esofagite eosinofílica também aparece na infância, e os sinais podem ser diferentes dos adultos. No novo episódio do nosso podcast, a alergista pediátrica Dra. Renata Cocco conversa sobre o tema.
“É só uma fase”?
Muitas famílias conhecem essa cena. A criança recusa a comida, demora muito para terminar o prato ou vomita com frequência. Quem está por perto costuma dizer que é fase, manha ou “frescura”.
Na maior parte das vezes, é mesmo uma fase. Mas, em algumas crianças, esses sinais podem estar ligados a uma condição chamada esofagite eosinofílica (EoE). Conhecer a EoE ajuda a família a fazer as perguntas certas e a buscar avaliação no tempo certo.
O que é a esofagite eosinofílica
A EoE é uma condição crônica. Isso quer dizer que ela acompanha a pessoa ao longo do tempo e pede cuidado contínuo, com fases de mais e de menos sintomas. Ela causa inflamação no esôfago, o tubo que leva a comida da boca até o estômago.
Na EoE, o sistema imune reage de forma exagerada a alguns gatilhos, principalmente alimentos. Isso faz um tipo de célula de defesa, o eosinófilo, se acumular no esôfago. Com o tempo, a inflamação pode deixar a passagem do alimento mais difícil.
A EoE pode aparecer em qualquer pessoa. Ela é mais comum em quem já tem outras condições alérgicas, como asma, rinite ou dermatite atópica, e em quem tem familiares com EoE.
Os sinais mudam com a idade
Uma das particularidades da EoE é que ela se manifesta de jeitos diferentes em cada fase da vida. Em adultos, o sinal mais conhecido é a sensação de comida “entalada”. Em crianças, o quadro costuma ser outro.
Em bebês e crianças pequenas, podem aparecer:
- dificuldades na alimentação e recusa alimentar;
- vômitos e sintomas parecidos com refluxo;
- ganho de peso abaixo do esperado.
Em crianças maiores, podem aparecer:
- dor na barriga ou no peito;
- vômitos e pouco apetite;
- refluxo que não melhora com o cuidado habitual;
- engasgos, dificuldade para engolir e ansiedade na hora das refeições.
Esses sinais também aparecem em outras condições. Por isso, só um profissional de saúde pode avaliar cada caso. A lista serve para ajudar a observar, não para diagnosticar.
Por que o diagnóstico pode demorar
Muitas pessoas com EoE tiveram sinais desde a infância. Só que esses sinais foram vistos como “jeito de comer”. Sem perceber, a pessoa se adapta: corta a comida em pedaços muito pequenos, bebe muita água junto, come devagar.
Para confirmar a EoE, a equipe de saúde costuma indicar uma endoscopia digestiva alta com biópsia (um exame que olha o esôfago por dentro e retira pequenas amostras para análise). O resultado é avaliado junto com o histórico e os sinais da criança.
Existem caminhos de cuidado
Hoje existem diferentes formas de cuidar da EoE, incluindo ajustes na alimentação e medicamentos. A escolha depende de cada criança e é feita em conjunto com a equipe de saúde.
Ajustes na alimentação nunca devem ser feitos por conta própria, principalmente na infância, quando a nutrição é essencial para o crescimento. O acompanhamento com gastroenterologista, alergista e nutricionista faz diferença.
A EoE vai além do prato
Na nossa cultura, comer é também encontro: aniversários, lanche da escola, almoço de domingo. Para a criança com EoE, esses momentos podem trazer insegurança. Para a família, trazem planejamento extra e, muitas vezes, cansaço.
Quem cuida também precisa de cuidado. Mães, pais e cuidadores de pessoas com condições crônicas podem sentir estresse, ansiedade e isolamento. Conversar com outras famílias, contar com a rede de apoio e buscar ajuda psicológica, quando fizer sentido, são formas de dividir esse peso.
Algumas ideias que famílias costumam compartilhar:
- conversar com a escola sobre as necessidades da criança;
- planejar festas e passeios que não girem só em torno da comida;
- explicar a EoE para a criança com palavras simples, para que ela participe dos próprios cuidados.
Ouça o episódio completo
No novo episódio do podcast da CDD, a Dra. Renata Cocco, alergista pediátrica, conversa sobre EoE em crianças e responde dúvidas comuns de famílias e cuidadores.
Se você é mãe, pai ou cuidador, esse episódio pode ajudar a organizar suas dúvidas para a próxima consulta. Se você convive com EoE desde a infância, sua experiência também importa: venha conversar com a gente.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.
Fontes
- GAAPP — Eosinophilic Esophagitis (EoE)
- CDD — e-book Vivendo com EoE (revisão técnica: Dra. Lilian Sally Chin, 2024)

